Lendo meu texto anterior:
"É rápido e brusco como um mar revolto... é a violenta dinâmica da vida".
Ai de mim, que não me enxergo. Isso depois de ter chamado de pomposa a frase do Napoleão.
Eu poderia me abster do comentário, ou ter apagado a frase, mas não tive alternativa;
passar pelo vexame é imprescindível para que eu aprenda.
Wednesday, June 15, 2005
Sunday, June 12, 2005
Disse que disse
Estava procurando o Napoleão, livrinho de cem páginas da coleção clássicos econômicos (insira um saquinho de risadas aqui). O nome da coleção é esse por causa do preço de cada exemplar (2 reais).
Daí entonses, não é que eu encontrei todos os outros livrinhos econômicos, menos o que eu queria? Estou *arretado* com isso. Tenho o famoso Conto de Natal do Dickens, Aforismos de Oscar Wilde, Comedor de Ópio, de Baudelaire e O Chamado da Floresta, de Jack London. Comprei todos numa época de grana curta (digo, curtíssima...curta ainda é) quando não conseguia conter meus impulsos livrescos "apesar dos farrapos", como diria uma amiga.
Mas eu queria achar o Napoleão para reler o que ele disse sobre suicídio. Só consigo lembrar que ele condenava o suicídio com uma frase pomposa do tipo: "Nenhum homem tem o direito de tirar a própria vida...". Mas me esqueci dos argumentos; e eu quero argumentos, ora pois.
Calma ainda, não estou pensando em me matar. A vida até que está encantadora, vai; mas é que algo me fez pensar no tema "suicídio", e eu fiquei tentando me lembrar do que Napoleão disse. Não gosto quando a minha memória falha.
____________________________________________________________________
Acho esquisito quando alguém desmerece o pensamento de um filósofo, alegando que este teve uma vida perturbada; ou que acabou se matando. Que alegação mais sem sentido!
Claro que um caminho que finda no suicídio não parece lá muito seguro, e todo o mundo sabe que o pensamento é traiçoeiro, tem armadilhas; mas daí a evitar um filósofo só por causa disso é besteira. Eu não preciso comprar as idéias que leio, nem absorvê-las em definitivo, porque só terei noção da validade delas quando se der o inevitável confronto com a experiência. Basear uma vida no pensamento ou nos conceitos é um erro, e se por um acaso o filósofo cometeu esse erro, por que eu o cometeria novamente?
Atribuir à filosofia a causa do suicídio não muda nada. O suicídio pode vir de um lapso ou decepção; e qualquer pessoa, por mais forte e mentalmente íntegra que esteja, pode passar por esse lapso, que é de uma rapidez leporina. É rápido e brusco como um mar revolto... é a violenta dinâmica da vida.
Daí entonses, não é que eu encontrei todos os outros livrinhos econômicos, menos o que eu queria? Estou *arretado* com isso. Tenho o famoso Conto de Natal do Dickens, Aforismos de Oscar Wilde, Comedor de Ópio, de Baudelaire e O Chamado da Floresta, de Jack London. Comprei todos numa época de grana curta (digo, curtíssima...curta ainda é) quando não conseguia conter meus impulsos livrescos "apesar dos farrapos", como diria uma amiga.
Mas eu queria achar o Napoleão para reler o que ele disse sobre suicídio. Só consigo lembrar que ele condenava o suicídio com uma frase pomposa do tipo: "Nenhum homem tem o direito de tirar a própria vida...". Mas me esqueci dos argumentos; e eu quero argumentos, ora pois.
Calma ainda, não estou pensando em me matar. A vida até que está encantadora, vai; mas é que algo me fez pensar no tema "suicídio", e eu fiquei tentando me lembrar do que Napoleão disse. Não gosto quando a minha memória falha.
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Acho esquisito quando alguém desmerece o pensamento de um filósofo, alegando que este teve uma vida perturbada; ou que acabou se matando. Que alegação mais sem sentido!
Claro que um caminho que finda no suicídio não parece lá muito seguro, e todo o mundo sabe que o pensamento é traiçoeiro, tem armadilhas; mas daí a evitar um filósofo só por causa disso é besteira. Eu não preciso comprar as idéias que leio, nem absorvê-las em definitivo, porque só terei noção da validade delas quando se der o inevitável confronto com a experiência. Basear uma vida no pensamento ou nos conceitos é um erro, e se por um acaso o filósofo cometeu esse erro, por que eu o cometeria novamente?
Atribuir à filosofia a causa do suicídio não muda nada. O suicídio pode vir de um lapso ou decepção; e qualquer pessoa, por mais forte e mentalmente íntegra que esteja, pode passar por esse lapso, que é de uma rapidez leporina. É rápido e brusco como um mar revolto... é a violenta dinâmica da vida.
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Peter Bogdanovich é o diretor de The Last Picture Show (A Última Sessão de Cinema), um dos meus filmes favoritos.
Às vezes eu entro em um site ou blog que me interessa, mas acabo não voltando mais, simplesmente por ter perdido o endereço.
Faz alguns meses entrei em um blog e o garoto fazia uma espécie de enquete, pedindo para que os leitores lembrassem de diretores de um filme só, ou seja, que fizeram apenas um filme bem sucedido e depois pararam com o cinema, ou caíram no ostracismo. Ele mencionou Michael Curtz com Casablanca; e eu lembrei de William Friedkin com O Exorcista, que depois fez um ótimo filme de tribunal, mas foi fraco nas bilheterias. Acho que mencionei também Afonso Arau e Como Água para Chocolate.
Agora eu lembro que a carreira de Peter Bogdanovich foi um contínuo fracasso depois de The Last Picture Show, e queria voltar no blog do garoto e avisar, mas perdi o endereço. Malz!
Quero muito rever esse filme. Muito, muito, muito, muito! É com Ellen Burstyn (O Exorcista), Ben Johnson, e Cybill Shepherd.
Às vezes eu entro em um site ou blog que me interessa, mas acabo não voltando mais, simplesmente por ter perdido o endereço.
Faz alguns meses entrei em um blog e o garoto fazia uma espécie de enquete, pedindo para que os leitores lembrassem de diretores de um filme só, ou seja, que fizeram apenas um filme bem sucedido e depois pararam com o cinema, ou caíram no ostracismo. Ele mencionou Michael Curtz com Casablanca; e eu lembrei de William Friedkin com O Exorcista, que depois fez um ótimo filme de tribunal, mas foi fraco nas bilheterias. Acho que mencionei também Afonso Arau e Como Água para Chocolate.
Agora eu lembro que a carreira de Peter Bogdanovich foi um contínuo fracasso depois de The Last Picture Show, e queria voltar no blog do garoto e avisar, mas perdi o endereço. Malz!
Quero muito rever esse filme. Muito, muito, muito, muito! É com Ellen Burstyn (O Exorcista), Ben Johnson, e Cybill Shepherd.
Saturday, June 11, 2005
This Happy Madness
A canção Estrada Branca, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, foi uma espécie de hino da minha adolescência - época em que fui extremamente romântico e gostava de curtir uma dor de amor das boas. Hoje, já chegando nos 25, não tenho mais tempo nem cabeça pra isso.
Mas eu quero falar da música e de como as duas versões, que vou postar abaixo, são distintas uma da outra. A canção original fala de uma dor profunda e de solidão; rimando caminho com sozinho, noite alta com falta, e finalizando com um retumbante: "...vou caminhando com vontade de morrer." A versão em inglês (americana), por outro lado, está longe de tentar traduzir o sentido da Estrada Branca de que fala a música, seguindo um caminho completamente oposto ao da canção original; e está mais para uma rasgada declaração de amor que para um lamento.
Embora as duas versões tenham a participação de Tom e Vinícius, a versão em inglês de certa forma atende a um outro tipo de público, não muito chegado as lamúrias da mpb. Então, a minha teoria é a de que os americanos gostam de imprimir uma esperança nas coisas. É o velho hábito de pensar alto e encarar o lado positivo de tudo, custe o que custar. No caso dessa música o resultado foi bom, mas em outras ocasiões fico com a pulga atrás da orelha. Ex: ontém estava eu na rede (a de navegar, não a de deitar), entrando em blogs aleatoriamente, como gosto de fazer, quando me deparo com um blog do Texas, cujo texto mais recente era sobre a morte de um amigo do blogueiro em questão. O motivo da morte foi a queda do avião que o rapaz pilotava - ao que tudo indica voar era a maior paixão da vida dele. Pois bem, o cara escreve um texto falando da paixão do amigo, da forma como ele abraçava os sonhos e os objetivos, da importância de vivermos cada momento como se fosse o último; com conselhos de vida, mensagens positivas e todas aquelas coisas que a gente vê nos filmes; mas deixou de fora um ponto crucial: a dor. Minha nossa, se um dos meus amigos morre eu ficaria tão arrasado que não teria condições nem de escrever no blog, que o dirá se fosse para falar da paixão, que nesse caso vitimou o amigo; e se o fizesse seria pra tentar exorcizar a minha tristeza...ou, no lugar dele, culpar a paixão por pilotar, xingar o avião, sei lá. E estaria inconsolável demais para pensar em conselhos e sonhos de vida. E não adianta falar que a dor do cara já tinha sido estancada porque o post foi escrito um dia após o desastre.
Mas voltando ao tema inicial: A começar pela letra, a versão americana já destoa completamente de Estrada Branca: This Happy Madness (Essa Feliz Loucura). É engraçado ouvir duas músicas com a mesma melodia mas com letras praticamente antagônicas (o piano da versão Happy Madness é de arrepiar). Sei que é meio ridículo ficar fazendo análise poética de canção, então comparem vocês mesmos e vejam a diferença entre as duas letras.
Mas eu quero falar da música e de como as duas versões, que vou postar abaixo, são distintas uma da outra. A canção original fala de uma dor profunda e de solidão; rimando caminho com sozinho, noite alta com falta, e finalizando com um retumbante: "...vou caminhando com vontade de morrer." A versão em inglês (americana), por outro lado, está longe de tentar traduzir o sentido da Estrada Branca de que fala a música, seguindo um caminho completamente oposto ao da canção original; e está mais para uma rasgada declaração de amor que para um lamento.
Embora as duas versões tenham a participação de Tom e Vinícius, a versão em inglês de certa forma atende a um outro tipo de público, não muito chegado as lamúrias da mpb. Então, a minha teoria é a de que os americanos gostam de imprimir uma esperança nas coisas. É o velho hábito de pensar alto e encarar o lado positivo de tudo, custe o que custar. No caso dessa música o resultado foi bom, mas em outras ocasiões fico com a pulga atrás da orelha. Ex: ontém estava eu na rede (a de navegar, não a de deitar), entrando em blogs aleatoriamente, como gosto de fazer, quando me deparo com um blog do Texas, cujo texto mais recente era sobre a morte de um amigo do blogueiro em questão. O motivo da morte foi a queda do avião que o rapaz pilotava - ao que tudo indica voar era a maior paixão da vida dele. Pois bem, o cara escreve um texto falando da paixão do amigo, da forma como ele abraçava os sonhos e os objetivos, da importância de vivermos cada momento como se fosse o último; com conselhos de vida, mensagens positivas e todas aquelas coisas que a gente vê nos filmes; mas deixou de fora um ponto crucial: a dor. Minha nossa, se um dos meus amigos morre eu ficaria tão arrasado que não teria condições nem de escrever no blog, que o dirá se fosse para falar da paixão, que nesse caso vitimou o amigo; e se o fizesse seria pra tentar exorcizar a minha tristeza...ou, no lugar dele, culpar a paixão por pilotar, xingar o avião, sei lá. E estaria inconsolável demais para pensar em conselhos e sonhos de vida. E não adianta falar que a dor do cara já tinha sido estancada porque o post foi escrito um dia após o desastre.
Mas voltando ao tema inicial: A começar pela letra, a versão americana já destoa completamente de Estrada Branca: This Happy Madness (Essa Feliz Loucura). É engraçado ouvir duas músicas com a mesma melodia mas com letras praticamente antagônicas (o piano da versão Happy Madness é de arrepiar). Sei que é meio ridículo ficar fazendo análise poética de canção, então comparem vocês mesmos e vejam a diferença entre as duas letras.
ESTRADA BRANCA
(Tom Jobim/ Vinícius de Moraes)
Estrada branca, lua branca, noite alta, tua falta
Caminhando, caminhando, caminhando ao lado meu
Uma saudade, uma vontade tao doída, de uma vida, vida que morreu
Estrada passarada, noite clara, meu caminho é
tão sozinho, tao sozinho a percorrer
Que mesmo andando para a frente, olhando a lua tristemente
Quanto mais ando, mais estou perto de você
Se em vez de noite fosse dia, se o sol brilhasse e a poesia
Se em vez de triste fosse alegre de partir
Se em vez de eu ver só minha sombra nessa estrada
Eu visse ao longo dessa estrada, uma outra sombra a me seguir
Mas a verdade é que a cidade ficou longe, ficou longe
Na cidade, se deixou meu bem-querer
E eu vou sozinho sem carinho, vou caminhando meu caminho
Vou caminhando com vontade de morrer.
THIS HAPPY MADNESS
(versão de Estrada Branca)
Tom Jobim/ Vinícius de Moraes/ Gene Lees
What should I call this happy madness that I feel inside of me?
Somekind of wild October gladness that I never thought I'd see
Whatever happened to my sadness, all my endless lonely sighs
Where are my sorrows now?
What happened to the frown and is that self contented clown
Standing there grining in the mirror really me?
I'd like to run through Central Park
Carve your initials in the bark of every tree I pass for everyone to see
I feel that I've gone back to childhood and I'm skipping through the wild wood,
So excited that I don't know what to do
What do I care if I'm a juvenile?
I smile my secret smile because I know the change in me is you
What should I call this happy madness all this unexpected joy
That turned the world into a baby's bouncing toy?
The gods are laughing far above
One of them gave a little shove and I fell gaily, gladly madly into love
Somekind of wild October gladness that I never thought I'd see
Whatever happened to my sadness, all my endless lonely sighs
Where are my sorrows now?
What happened to the frown and is that self contented clown
Standing there grining in the mirror really me?
I'd like to run through Central Park
Carve your initials in the bark of every tree I pass for everyone to see
I feel that I've gone back to childhood and I'm skipping through the wild wood,
So excited that I don't know what to do
What do I care if I'm a juvenile?
I smile my secret smile because I know the change in me is you
What should I call this happy madness all this unexpected joy
That turned the world into a baby's bouncing toy?
The gods are laughing far above
One of them gave a little shove and I fell gaily, gladly madly into love
Friday, June 10, 2005
Under the Volcano
Não sei se me gabo pelo meu poder imaginativo ou se acho natural a minha capacidade de ter imaginado a rua Calle Nicaragua tal como ela existe de verdade. Como a imaginação pode ser bem melhor que a realidade, acho que eu deveria era me envergonhar por tê-la de modo tão tacanho. Mas taí a rua, como se tivesse sido estraída da minha mente:
Non si puede vivir sin amar
E tem mais de onde veio essa.
E tá aqui o link para o site, que tem bastante coisa interessante: sumário dos capítulos, biografia de Lowry, links, críticas, etc...
Memórias III (com fundo moral)
Quando eu tinha onze anos, no longínquo verão de 91, ganhei um pintinho. Meus primos também ganharam. Eram pintinhos coloridos, então cada qual ganhou um de cor diferente—o meu era amarelinho.
Como vivíamos em um casarão com um vasto quintal, não parávamos quietos: era corre-corre, pega-pega, cuz cuz e mais uma porção de brincadeiras que exigiam sebo nas canelas.
Não preciso dizer que muitos desses pobres pintinhos foram pisoteados por nossos pezinhos ágeis e inconseqüentes. E cada vez que um pintinhos era massacrado, havia uma comoção geral, com tristeza maior para o respectivo dono—que ainda conseguia distinguir a cor de seu pintinho, confundida com sangue nas peninhas retorcidas.
Eu vivia com medo de que meu pintinho fosse o próximo a ser pisoteado, e na medida do possível evitava correr pelo quintal. Mas eu não podia controlar os outros, e um belo dia, chega a minha vez; ou melhor: a vez do meu pintinho. Estava lá o bichinho, ainda vivo, com o papinho pro ar e um pouco das tripinhas recém espragatadas para fora. Segurei ele por alguns instantes, com o coração doido, mas na esperança de que poderia haver salvação para a vida daquele bichinho; e nisso tive a apressada idéia de juntá-lo aos demais sobreviventes-- no total de nove, restaram quatro -- que a essa altura já estavam devidamente protegidos por uma cerquinha de arame (medida tardia).
Como eu estava sozinho no quintal, ninguém me alertou para os perigos do meu procedimento. Eu estava ali, naquele momento, sendo movido por um sentimentalismo extremado, pois estava crente de que a companhia dos outros pintinhos faria com que meu bichinho recobrasse a plena saúde; cheguei até a refletir sobre a relação entre tristeza, doença e solidão.
Mas qual não foi meu espanto e horror quando depositei o pintinho no viveiro. Presenciei, estarrecido, uma cena indelével: os outros quatro avançaram na tripinha exposta do meu pintinho, e bicando ela com tanta fúria, que extraíram o restante de tripa que ainda estava no corpinho dele—enfim, foi um banquete sinistro, que me deixou paralisado, sem a menor ação.
E foi naquela tarde que tive a revelação e o ensinamento que carrego até hoje comigo:
A vida em grupo é um perigo, e a sociedade é o resultado da soma dos variados grupos de pessoas com interesses em comum. Para se viver em sociedade, é preciso aniquilar qualquer resquício de sentimentalismo e fraqueza; e o mais importante: caso esteja ferido, esconda sua ferida até o fim, não a demonstre por um instante sequer; pois revelar o mínimo de uma ferida é o mesmo que pedir para que os outros exponham ela por inteiro, com crueza e voracidade. Ao menor sinal de uma fraqueza, pisam com gosto, para descobrir as demais, até reduzi-lo a uma espécie de mínimo denominador—material para estudo e lições para os demais. A diferença entre aqueles pintinhos e o resto da humanidade, é que os bichos eram dóceis somente na aparência física, enquanto os homens estendem a docilidade por palavras e princípios. Mas a crueldade é equivalente.
Passado o choque, tirei do viveiro o corpo morto do meu bichinho, caminhei pelas ruas com ele nas mãos (acho que meu rosto estava sereno nessa hora), me dirigi até a ponte, e joguei o meu pintinho no rio.
Como vivíamos em um casarão com um vasto quintal, não parávamos quietos: era corre-corre, pega-pega, cuz cuz e mais uma porção de brincadeiras que exigiam sebo nas canelas.
Não preciso dizer que muitos desses pobres pintinhos foram pisoteados por nossos pezinhos ágeis e inconseqüentes. E cada vez que um pintinhos era massacrado, havia uma comoção geral, com tristeza maior para o respectivo dono—que ainda conseguia distinguir a cor de seu pintinho, confundida com sangue nas peninhas retorcidas.
Eu vivia com medo de que meu pintinho fosse o próximo a ser pisoteado, e na medida do possível evitava correr pelo quintal. Mas eu não podia controlar os outros, e um belo dia, chega a minha vez; ou melhor: a vez do meu pintinho. Estava lá o bichinho, ainda vivo, com o papinho pro ar e um pouco das tripinhas recém espragatadas para fora. Segurei ele por alguns instantes, com o coração doido, mas na esperança de que poderia haver salvação para a vida daquele bichinho; e nisso tive a apressada idéia de juntá-lo aos demais sobreviventes-- no total de nove, restaram quatro -- que a essa altura já estavam devidamente protegidos por uma cerquinha de arame (medida tardia).
Como eu estava sozinho no quintal, ninguém me alertou para os perigos do meu procedimento. Eu estava ali, naquele momento, sendo movido por um sentimentalismo extremado, pois estava crente de que a companhia dos outros pintinhos faria com que meu bichinho recobrasse a plena saúde; cheguei até a refletir sobre a relação entre tristeza, doença e solidão.
Mas qual não foi meu espanto e horror quando depositei o pintinho no viveiro. Presenciei, estarrecido, uma cena indelével: os outros quatro avançaram na tripinha exposta do meu pintinho, e bicando ela com tanta fúria, que extraíram o restante de tripa que ainda estava no corpinho dele—enfim, foi um banquete sinistro, que me deixou paralisado, sem a menor ação.
E foi naquela tarde que tive a revelação e o ensinamento que carrego até hoje comigo:
A vida em grupo é um perigo, e a sociedade é o resultado da soma dos variados grupos de pessoas com interesses em comum. Para se viver em sociedade, é preciso aniquilar qualquer resquício de sentimentalismo e fraqueza; e o mais importante: caso esteja ferido, esconda sua ferida até o fim, não a demonstre por um instante sequer; pois revelar o mínimo de uma ferida é o mesmo que pedir para que os outros exponham ela por inteiro, com crueza e voracidade. Ao menor sinal de uma fraqueza, pisam com gosto, para descobrir as demais, até reduzi-lo a uma espécie de mínimo denominador—material para estudo e lições para os demais. A diferença entre aqueles pintinhos e o resto da humanidade, é que os bichos eram dóceis somente na aparência física, enquanto os homens estendem a docilidade por palavras e princípios. Mas a crueldade é equivalente.
Passado o choque, tirei do viveiro o corpo morto do meu bichinho, caminhei pelas ruas com ele nas mãos (acho que meu rosto estava sereno nessa hora), me dirigi até a ponte, e joguei o meu pintinho no rio.
Coração alado
Nos anos 60 a rede globo estava tendo sérios problemas com a baixa audiência de uma novela, que tinha a Leila Diniz como protagonista. Os índices no ibope eram tão baixos, que a coordenação da emissora resolveu afastar o autor original e em seu lugar contrataram a Janete Clair. A primeira providencia da nova autora foi meter um terremoto na trama e matar quase todos os personagens da novela, sobrando apenas os protagonistas A medida não garantiu audiência, mas o fato entrou para a história.
Hoje, basta eu assistir por quatro minutos uma novela para me lembrar dessa história, e começar a desejar que um terremoto, um furacão, uma tromba d’água, um tsunami, uma bola de fogo cósmica apareça na trama e mate, não a maior parte, mas todos os personagens.
Hoje, basta eu assistir por quatro minutos uma novela para me lembrar dessa história, e começar a desejar que um terremoto, um furacão, uma tromba d’água, um tsunami, uma bola de fogo cósmica apareça na trama e mate, não a maior parte, mas todos os personagens.
Tuesday, June 07, 2005
O eterno retorno

Os velhos mitos e as pequenas verdades não desaparecem nunca, não é mesmo? E o triste é que eles não existem por si só; não são partes fundamentais da realidade, e nem essenciais pra coisa alguma Trocando em miúdos: os velhos mitos e as pequenas verdades estão ligados à realidade como que por uma solda da cultura. Essa ligação forçada, artificial, vai se repetindo, ao longo das gerações, como se fosse um texto de teatro, que em determinada data deve ser representado—em nome da tradição.
O estigma do “bode expiatório” é um exemplo clássico e cheio de vida.
As cabeças pensantes, quando querem dar um sentido para a História, armam um lindo esquemão de encadeamento de fatores; e vão buscar, não no pensamento, mas em um único pensador, a matéria-prima, a primeira fagulha para armar o esquema escamoso.
E fica assim, tudo muito bonitinho e jeitoso. E o melhor de tudo: você tem a quem culpar (uma cabeça) pelas mazelas de um pedação do processo histórico. Simples, prático e eficiente; isso não é demais?. E a revolta, inevitável para quem quer que analise a Historia, fica assim muito bem direcionada.
É engraçado, por exemplo, pegar Nietzsche, aquela coisinha maguinha e frágil (parece uma rã), e culpá-lo por portentosos estragos no Ocidente. Então, eu tenho o pensamento, o pensador-o bode, e uma série de fatores concretos e históricos para fazer ligações e “click!”, entender toda a realidade que me cerca—ô sabor! É como um daqueles joguinho de montar, que nossas titias davam de presente e diziam: “É um brinquedinho que estimula a inteligência, fio!”
E o passado? Digo, a época anterior ao nascimento do bode-expiatório-cabeção, é pintado como um paraíso fenomenal, pois sim—a verdadeira festa das luzes, onde todos eram felizes e saltitantes. Até, é claro, a chegada daquela maldita cabeça na aldeia.
Porque, vocês não sabem? O livre pensamento não existia naquele passado remoto, e não existia uma pessoa sequer contaminada com essa praga. É tudo culpa da cabeça...e dos malditos livros que ela escreveu.
O estigma do “bode expiatório” é um exemplo clássico e cheio de vida.
As cabeças pensantes, quando querem dar um sentido para a História, armam um lindo esquemão de encadeamento de fatores; e vão buscar, não no pensamento, mas em um único pensador, a matéria-prima, a primeira fagulha para armar o esquema escamoso.
E fica assim, tudo muito bonitinho e jeitoso. E o melhor de tudo: você tem a quem culpar (uma cabeça) pelas mazelas de um pedação do processo histórico. Simples, prático e eficiente; isso não é demais?. E a revolta, inevitável para quem quer que analise a Historia, fica assim muito bem direcionada.
É engraçado, por exemplo, pegar Nietzsche, aquela coisinha maguinha e frágil (parece uma rã), e culpá-lo por portentosos estragos no Ocidente. Então, eu tenho o pensamento, o pensador-o bode, e uma série de fatores concretos e históricos para fazer ligações e “click!”, entender toda a realidade que me cerca—ô sabor! É como um daqueles joguinho de montar, que nossas titias davam de presente e diziam: “É um brinquedinho que estimula a inteligência, fio!”
E o passado? Digo, a época anterior ao nascimento do bode-expiatório-cabeção, é pintado como um paraíso fenomenal, pois sim—a verdadeira festa das luzes, onde todos eram felizes e saltitantes. Até, é claro, a chegada daquela maldita cabeça na aldeia.
Porque, vocês não sabem? O livre pensamento não existia naquele passado remoto, e não existia uma pessoa sequer contaminada com essa praga. É tudo culpa da cabeça...e dos malditos livros que ela escreveu.
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