Wednesday, September 20, 2006

Para esquecer um grande amor

Para esquecer um grande amor, preciso é muita concentração e um tantinho de cinismo, unido a gargalhadas, sarcasmo e muito riso - para esquecer um grande amor.

Para esquecer um grande amor, mister é ser homem que não dá ponto sem nó, daqueles que caem na orgia sem dó, e sem arrependimentos.

Para esquecer um grande amor, dê risadas às escondidas do bufão que sagra-se cavalheiro, que não sabe que o bom da vida mesmo é ganhar muito dinheiro - para esquecer do grande amor.

Para esquecer um grande amor, junte-se ao "velho amigo" e assim reunidos, você, ele e a garrafa de pinga, recorde que já existiram tantos outros grandes amores, e no entanto estão todos hoje submersos em um profundo e sombrio mar do esquecimento. Junte-se também àquele que não está apaixonado; ele sempre trará conselhos sábios, para esquecer do grande amor.

Para esquecer um grande amor, é preciso ser um sujeito com muito peito. é preciso olhar a(o) sua bem amada(o) como uma ave passageira, como um rosto que em breve não mais será lembrado, e tampouco desejado.

Conta ponto fazer coisinhas: ovinhos mexidos, torresminhos, batatinhas vinagrete, bifinhos refolgados, mas atenção: faça SOMENTE pra você! Afinal, seu corpo vive em uma eterna fase de crescimento. E só adolescentes bobalhões precisam esquecer de um grande amor. E é exatamente nessa hora, e somente nessa hora da gula, que você assume que não passa de um.

É preciso saber tomar não só uísque, mas também conhaque, celveza, vodka, pinga pura e pinga com limão. De preferência misture todas elas e dane-se a brincar de disquinhos voadores com seus malditos CDs dor de cotovelo.

Mas se tudo isso não bastar, dê um tiro no seu peito. Aí eu quero só ver se assim você não esquece do grande amor.

Sunday, August 20, 2006

Modernidade

Minha mãe quer que eu compre uma TV para o meu quarto. Todas as mães do mundo regozijariam ao saber que seus filhos não dão a menor bola para a TV; mas a minha é diferente.
O meu medo é que por fim ela não só me convença a comprar o aparelho, como também me force a ver os programas.

Wednesday, August 02, 2006

Filosofia de quinta adiantada para quarta OU pensamentos avulsos

Passando a vista rapidamente pelos meus últimos posts, percebo que ando escrevendo bastante sobre literatura. Demais até para meu gosto, que é complacente. A parte boa disso é que no fim das contas eu sei que o faço sem nenhum risco de pretensão. Graças ao bom pai celestial, diga-se. Mas mesmo assim, uma coisa fica a me incomodar: sinto que estou meio que me apegando demais à literatura. E eu nasci para não me apegar a nada.

Eu só não acabo com este blog porque já o tenho faz mais de um ano - tempo suficiente para criar o hábito de escrever minhas groselhas aqui, ainda que esporadicamente. Eu bem que poderia fazer o teste e apagar, só para ver se eu vou sentir falta. Mas eu me conheço e sei que se fizer isso, em menos de um mês eu volto com outro. E pior: vou sentir saudades deste.

Sinais de cinismo: observar uma pessoa feliz da vida e imediatamente imaginar que alguém, em alguma parte do mundo, e no mesmo instante, está sendo feita de trouxa, para o bem da lei da compensação.

Sentimental é aquele que não conseguiu alcançar seu objeto de desejo e acha que pode ferir o mundo com sua ladainha adocicada. O problema é que na maioria das vezes ele consegue, já que sempre vai encontrar um idiota querendo ser o objeto-de-desejo-substituto. Então o idiota leva uma cacetada-coice do sentimental, e o ciclo interminável recomeça.


O problema das pessoas é que elas não conseguem se livrar das coisas que lhes fazem mal (masoquismo?). Um outro problema é que elas sempre gostam de uma coisa só.

Tuesday, July 25, 2006

E o povo constrói ídolos, e faz estátuas...e Deus não gosta

Estava eu, muito tranqüilamente, a folhear livros dentro de um desses sebos da vida, quando um corvo se revelou no topo da estante - tinha a aparência de um demônio cheio de pó. Ele não disse "nunca mais", foi breve e, além do quê, devia ter coisas mais importantes para fazer. E era um corvo tão severo que nem quis saber de muita prosopopéia. Fato é que a nossa comunicação se deu por uma transmissão de pensamentos. E foi assim que ele lançou a questão:
"Pensa rápido! Pensa rápido! Cite três autores brasileiros superestimados pelo público e crítica. Pense naqueles que merecem uma boa dose de esquecimento e poeira..."

Não deixei o corvo concluir. Devolvi a resposta instantâneamente:

- Clarice Lispector;
- Mário de Andrade;
- Luís Fernando Veríssimo


Nos pertences de uma famosa escritora dessas terras foi encontrada uma carta, posteriormente desamassada, redigida com irregulares letras de forma...mas com tinta vigorosa.

"Querida Clarice, preciso muitu lhi dizer uma coisa e vô falar com as profundezas do córação...não sou escritora, tão pouco sei escrever direito, mas o dever moral me chama. Aceite este consselhu di amiga, di mulher do povo e trabalhadeira..achu que você vai me entender, você fala muito de coisas de mulher. Eu não te cunheço, você não me cunhece, mas pensa na franqueza e no alerta de alguém qui não pode se calar dianti da verdade olcuta das coisa.

Clarice Lispequitor, por amor a Deus Pai, aceite Jesus no coração!! Porque só ele e mais ninguém vai livrar você desses fuxicos de consciença e vai expulsar as epifainhas."

ASS: Terezinha da Conceição

Rio de Janeiro, março de 1970

Thursday, June 22, 2006

The Faith

Musicas são engraçadas. Assim como os aromas, elas marcam fases das nossas vidas. Um livro que você leu aos 15 anos terá uma outra "versão" aos 25; já a música e o perfume, não. Ao invés de fazerem você refletir sobre o passado, eles transportam seu espírito para trás no tempo, e você, mesmo sem querer, carrega para sempre aquela primeira impressão.
Tenho total certeza de que, não importa o tempo que passar, no futuro, quando eu ouvir "The Faith", do Leonard Cohen, viajarei de volta para este ano de 2006, e para essa atua fase.

The Faith
(Leonard Cohen)

The sea so deep and blind
The sun, the wild regret
The club, the wheel, the mind,
O love, aren't you tired yet?

The blood, the soil, the faith
These words you can't forget
Your vow, your holy place
O love, aren't you tired yet?

A cross on every hill
A star, a minaret
So many graves to fill
O love, aren't you tired yet?

The sea so deep and blind
Where still the sun must set
And time itself unwind
O love, aren't you tired yet?

And time itself unwind

O love, aren't you tired yet?

Sunday, May 21, 2006

O Colecionador

Na contracapa de uma edição de O Colecionador (John Fowles) - Tradução de Fernando de Castro Ferro, São Paulo: Abril Cultural, 1980 - é dito que os tipos são caracterizados pela linguagem que usam. Sendo assim, a primeira parte do livro, narrada por Clegg (Calibã), é pautada pela gritante mediocridadede de seu caráter, enquanto que a segunda metade, o diário de Miranda, teria um estilo ágil, nervoso e cheio de vitalidade.

Eu não sei se a culpa é do tradutor mas, na minha honesta opinião, o que acontece é bem o contrário disso. Enquanto o livro é narrado por Clegg existe um encanto de mistério, e as coisas vão aos poucos se definindo no desenrolar da ação, com suspense e até humor.
Não nego que a personalidade de Miranda seja superior a de Clegg, mas devo dizer que a segunda metade, o diário, é muito chata. Fica um tal de G.P isso, G.P aquilo... Tive ganas de parar com a leitura. Na primeira parte do livro Miranda era inteligente e misteriosa; já na segunda, quando mergulhamos no seu íntimo diário, continuamos maravilhados com a sua singular inteligência, mas o que antes era mistério e graça, agora desaparece no meio de uma chatice, de uma histeria...A histeria eu perdoo, já que ela é a raptada da história. Mas para chatice não há perdão...no no!

Não sei qual era o escritor que dizia que as pessoas que não conhecemos bem são maravilhosas, ou algo assim. Seja lá quem foi que disse isso, eu tô com ele.

Thursday, May 18, 2006

Carta aberta para Concy Maduro

Querida Concy, confesso que de início cogitei a possibilidade de deixar tudo como está: você pensa que eu sou quem eu não sou, enquanto de cá eu calo e consinto em ser quem você pensa que eu sou, embora eu não seja.
Caso você seja quem eu penso que você é, e ainda que não seja, fico lisonjeado com sua ilustre visita. Volte sempre, e bem vinda seja.
Mas pense em mim como alguém que você não sabe quem é, pois que tenho o dever moral de informá-la que eu não sou quem você pensa que eu sou, muito embora eu tenha quase total certeza de saber quem você é.

Afinal, um de nós dois apareceu na TV ;)